O corpo antigo – Paula Tavares

A porta larga do curral ficou pequena
todos queriam entrar ao mesmo tempo
olhar teu corpo antigo
tu o da garça branca que planava nas alturas
tu o mais esperto que o milharfe
tu filho da multidão
o chamador da chuva
o bicho cinzento das mulheres
Voltaste mudo e sem o arco
meu marido
e nem sequer pude ofertar-te
a pulseira do clã
a erva do sacrifício
as doces coxas das rãs
o meu cabelo.

As sem-razões do amor – Drummond

às vezes faltam-me palavras, mas as encontro em dores de outro

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Fragmento de “Perdoando Deus”, de Lispector

Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? Enquanto eu imaginar que “Deus” é bom porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me recusar. Eu, que nem sem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava apenas querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, ele não existe.

sou incapaz de corresponder a todas as declarações de saudade que meus colegas de Ensino Fundamental e Médio demonstram repetidas vezes ao longo do ano.  apesar do uso de lugar-comum, sei que o sentimento é legítimo; mas ainda assim me é custoso pensar em sentir falta daquelas tardes.

não sinto. aquele é meu rato ruivo e morto, em que quase pisei e que me desconcertou. à época eu estava por entrar na fase em que ainda procuro sair, em uma sensação de deslocamento que me persegue nos últimos dez anos. lembrar de quando íamos à escola para não fazer nada é apenas a imagem, incrivelmente nítida, do início da minha adolescência, do meu isolamento e de tantos péssimos comportamentos sociais que desenvolvi ali, durante aquelas tardes.

não gosto de todos meus colegas, mas sinto carinho por muitos deles. mas não posso dizer que lamento meu silêncio.
ser mãe de deus e quase pisar no rato são fatos distintos, mas indissociáveis.

requiem for a dream

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perdi a conta de quantas vezes já o assisti. criei relações absurdas entre os personagens do filme e os da minha vida; gostei do filme por trinte e sete razões diferentes, que se excluíam mutuamente; senti os eletrochoques com a Sarah; me senti como a Marion ao buscar algo e não encontrar.

e não era cocaína, até porque o filme está envolto à droga, mas é muito mais que isso. somos todos nós ali, viciados ou não. sufocados pelo nada, sendo guiados pelo cotidiano vazio, convivendo com a presença da ausência e todos os demais paradoxos a que podemos sobreviver. como Marion, procuramos confortos instantâneos que apenas acalentam a dor, jamais a destroem completamente.

– então todas as vezes que ouço a frase do início do filme, “tudo terminará bem”, tenho a sensação de que um braço meu será amputado.

Day 22 — Someone you want to give a second chance to

Just 19 and sucker’s dream I guess I thought you had the flavour
Just 19 and dream obscene with six months off for bad behaviour

Era exatamente assim. Ainda penso em 2009 todas as vezes que ouço essa música, sabendo que foram esses os meus 19 anos: castigo pelo mau comportamento.

Aprendi a não repeti-lo. A questão aqui, porém, é que meu mau comportamento era, na definição do meu castigador, qualquer demonstração de sentimento. Não acredito que tenha sido proposital, não era a intenção do meu castigador, mas foi assim que me senti durante todos aqueles meses. Logo entendi que sentimento era fraqueza, e que eu não deveria criar laços porque, contraditoriamente, eu ficaria sozinha.

Eu ainda não me desliguei desse aprendizado. Ainda construo muros, crio delimitações nas minhas relações – em todas elas. Mesmo consciente do quão horrível isso pode parecer, não me libertei da relação sentimento-castigo que me foi ensinada.

Mas recentemente aprendi que aceitamos o amor que acreditamos merecer. Entendo que, para a menina de 19 anos, qualquer esboço de amor era suficiente. Mas para a mulher de 23 anos qualquer coisa menor que o tudo é pouco.

E não há uma boa maneira de terminar este texto.

Day 21 — Someone you judged by their first impression

C.,

Julguei você pela primeira impressão e devo sinceras desculpas a mim mesma. Eu achei você responsável, comprometida e divertida, mas estava enganada – não completamente, mas em quase todos os momentos em que precisei de você e de algum bom senso. O último ano foi muito difícil porque você estava presente, mas sua sanidade mental não.

Espero que as coisas fiquem mais tranquilas para você agora. Apesar de tudo, tenho um carinho imenso por você; geralmente acredito que seja inexplicável, mas no fundo sei que você tem qualidades incríveis, apesar de eu não conseguir enxergar nenhuma no momento.
Realmente espero que você fique bem,

Camila.

17:26

A luz começa a diminuir, a sombra é menos intensa. Tudo ganha um tom dourado bonito, a temperatura ambiente é um pouco mais amena e as pessoas sorriem, alegres, com o fim do expediente. E ainda assim o final da tarde é o momento do dia mais odioso para mim, ver o relógio marcar dezessete horas é como uma sentença de morte.
O horário mais melancólico, essas dezessete horas. O dia está acabando, um dia de oportunidades a menos e um então amanhã a mais; a procrastinação venceu novamente. Sofro menos quando não vejo o sol se pôr e ainda menos no horário de verão, quando já me dei por vencida muito antes da escuridão aparecer.
Durante as férias, vou dormir às seis, sete, oito da manhã com frequência, acordo depois do almoço. Às vezes não durmo. Prolongo a duração dos dias o máximo possível, a incrível duração do agora.

Não sei sei de onde surgiu esse medo de fim, mas fez surgir uma apreciação exagerada por luz. Especialmente a que vem diretamente de cima.

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